quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Me empreste seu pai?


  Me empreste seu pai? Só um pouquinho, me deixe imaginá-lo meu e dizer o que não disse ao meu, enquanto vivo; falar aquilo que vai em meu coração, escutar seus conselhos, discordar de alguns por instantes, depois refletir e ver neles a sabedoria dos anos, das lutas, das noites mal dormidas a procurar soluções para problemas que eram de todos, mas que estavam apoiados em seus ombros vergados.
  Me empreste seu pai? Só um pouquinho, para tê-lo como meu e pedir desculpas por tristezas provocadas, para rir risos de histórias e momentos felizes passados; sentir que ainda sou criança e, de cavalinho em seus ombros fortes, sentir o apoio de suas mãos seguras de gigante e, na minha inocência, imaginar que elas podiam segurar o mundo e, como herói que era, me defender dos dragões, dos medos noturnos, das doenças. E, que se possível fosse, queria que elas como num passe de mágica se transferissem para o seu corpo.
  Me empreste seu pai? Só um pouquinho, para que me aninhe em seus braços nos momentos de incertezas e aflições do cotidiano.
  Me empreste seu pai? Só um pouquinho, para, simbolicamente, lhe dar um beijo na face já sulcada pelas rugas, marcas registradas da velhice, e ter a chance de me redimir de coisas que só um pai perdoa.
  Me empreste seu pai? Só um pouquinho e, assim como se fosse meu, agradecê-lo pelos exemplos, puxões de orelhas, o calçado novo, enquanto ele escondia a sola furada.
  Me empreste seu pai? Só um pouquinho, só para chamá-lo de pai, pois esta palavra foi banida do meu dicionário, depois que o meu se foi, e, então, dar-lhe um abraço apertado e dizer que neste dia especial não me esqueci dele.
  Me empreste seu pai? Só um pouquinho, para através dele, falar ao meu, que não está presente fisicamente mas, sim, em meu coração e, assim, desejar-lhe um feliz dia dos pais e dizer-lhe que, ainda e sempre, o amarei.
  Me empreste seu pai? Só um pouquinho.

 Escrito por: Luiz Carlos Cardoso

Publicado em 2005
 A todos que nunca esqueceu.

2 comentários:

  1. achei mto lindo o texto! alias escutei na metropole no dia dos pais...mas não sabia que o autor era vc...Parabéns!

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  2. CARO LUIZ CARLOS. Já sou freguês do seu blog. Ainda estou aprendendo a navegar por ele. Não é tão simples assim. Principalmente para leigos como eu. Tal como a Marilli, gostei muito da sua crônica sobre o PAI - quase um poema. Um sentimento muito próximo ao meu que, deixei de conviver com meu pai como queria e quando pensei em corrigir esse erro já era tarde. Muito tarde. Voltarei. Abraços. Juvenal

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